
2010-08-20 Paul, O Polvo, acertou novamente, e a Espanha sagrou-se, pela primeira vez, campeã mundial, graças a uma vitória sobre a Holanda, numa emocionante final decidida no prolongamento. Com todos os golos do título obtidos por jogadores do Barcelona, não constituiu surpresa que, mais uma vez, o herói da final tenha sido um catalão, de seu nome Iniesta, a decidir a favor da selecção espanhola. Isto um dia depois de, em Barcelona, cerca de um milhão de pessoas se ter manifestado contra uma decisão do Governo espanhol que, basicamente, diminui o estatuto autonómico da Catalunha. Mundo complexo este em que vivemos. Nem sempre difícil, por vezes maravilhoso!
O título espanhol confirmou um estilo de jogo, o futebol de "tiqui-taca", cujo expoente máximo nos últimos anos foi o Barcelona (onde Pep Guardiola estudou, reformulou e implementou ensinamentos de Cruyff, um holandês "transformado em catalão"). Barcelona, clube catalão, teve sete dos onze titulares da final, dois deles os "baixinhos" Xavi e Iniesta, jogadores geniais, humildes e capazes de pensar na equipa antes de neles próprios, mestres em liderar uma equipa vencedora.
Que diferença entre La Roja, e seus jogadores, com uma atitude humilde mas determinada, e a selecção portuguesa, e suas vedetas, cujo expoente máximo é o egocêntrico Cristiano Ronaldo, com tanto de genial como de egoísta. Que diferença entre Del Bosque, calmo e respeitado líder espanhol e Carlos Queirós, treinador sempre mal encarado, queixoso do mundo e incapaz de liderar a equipa. Poderíamos até ser tentados a dizer que mais vale catalão que espanhol e espanhol que português, numa heresia que ainda nos levava a maldizer o nosso Rei Afonso Henriques, líder visionário e guerreiro de méritos reconhecidos. O que, mais que heresia, seria injusto!
O problema não está nos povos, ou nos seus genes. Estes são tão bons/tão maus num como em qualquer outro. Está isso sim nos objectivos, na estratégia, na organização e na governação, está na qualidade das pessoas e nos incentivos que lhes são dados. Em Portugal, a eliminação nos oitavos de final deu origem a mais de 3 milhões de euros de prémios de "desempenho" ao treinador e jogadores, e à auto-satisfação por um trabalho que se afirma "bem feito", porque "só perdemos uma vez, só por 1-0, e só com o campeão do mundo". Quem vive a vida para não a perder dificilmente um dia a vai ganhar!
Porque a vida não são só tristezas, foi bonito ver Nelson Mandela, o histórico primeiro líder negro da África do Sul, que surgiu transportado até ao centro do relvado por um veículo móvel, e onde recebeu a maior manifestação de carinho de quase 90.000 eufóricos espectadores nas bancadas.
Em Espanha, o objectivo era ganhar. Objectivo coerente com os do Barcelona, berço de uma geração de luxo, onde Messi (nascido argentino, não é hoje também campeão do mundo!) cresceu e joga com Xavi, Iniesta e companhia. Todos eles génios humildes, formados e habituados a trabalhar para a equipa e para o resultado. E, tendo crescido numa cultura que sempre valorizou o mérito colectivo em detrimento do falso engrandecimento pessoal, são hoje e justamente heróis globais.
O resultado deste primeiro mundial africano é o prémio justo para a maior qualidade catalã/espanhola e confirma as qualidades de Paul, O polvo, que não falhou uma única previsão*. Sabendo nós que este brilhante molusco marinho, da classe Cephalopoda e da ordem Octopoda, não deve ter, dada a raça, muitos anos (vivem cerca de três!) para nos dar palpites, é com satisfação que soubemos (consta que o disse uma lula que lhe anda a fazer a corte ) que o próximo campeão nacional será o amigo Dragão.
Dando um "abraço de gratidão" aos jogadores, o Rei Juan Carlos quis saudar o exemplo que a vitória espanhola representou para o país. "Sois exemplo de desportivismo, de nobreza, de bom jogo, de trabalho em equipa. Saúdo também Vicente del Bosque, que sempre terá o meu reconhecimento. Um exemplo de esforço e espírito de superação e de demonstrar a capacidade de Espanha em conseguir juntos os êxitos que nos proponhamos", disse.
E nós por cá!? Quando é que deixamos de viver com Polvos que pouco adivinham, mas muito condicionam e seguimos exemplos de "desportivismo, de nobreza, de trabalho em equipa"?
Enquanto isso, boas férias a ler, e ver, a Litoral Magazine!
*Pelo menos no que à final diz respeito, também Harry, O Crocodilo, cujos 700 quilos impõem muito mais respeito do que as 700 gramas de Paul, O Polvo, foi rápido e demorou menos de um minuto para sair da água e comer um frango que estava pendurado sob uma bandeira espanhola, deixando de lado o que estava com o pavilhão holandês. Se esta bicharada começa a acertar no Euromilhões
Ricardo Luz
Partner Gestluz Consultores
Agosto 2010





